As sequências iniciais de Bloodshot são bastante emblemáticas, pois representam exatamente o tipo de filme de ação que já está saturado, com todo o seu militarismo e estereótipos raciais. Com um plano geral numa comunidade no Quênia, vemos soldados estadunidenses entrando em ação contra um grupo armado, para resgatar um homem caucasiano de vestes sociais. Com um sotaque carregado e uma arma na cabeça da vítima, um homem de etnia moura faz exigências a Ray Garrison (Vin Diesel), que, na sequência, as ignora com um tiro letal. Missão cumprida – todos fazem parada num aeroporto da Itália, onde comemoram com gritos de guerra. Logo surge a parceira de Garrison para recebê-lo em seu belo carro, e, banhados pela luz do Sol, trocam carícias. Logo, num quarto de motel, já desnudos, conversam sobre o futuro e os riscos que o ofício do viril herói oferecem, como atestam suas cicatrizes.

Tudo isso, naturalmente, precede a trágica história de origem do protagonista, que também conta com vários estereótipos e clichês, assim como todo o primeiro ato, após sua transformação para algo sobre-humano. A esta altura, dificilmente o espectador mais impaciente está investido na obra, até que o roteiro apresenta uma boa justificativa para os longos minutos de clichês testemunhados, e que já resolve questões que muito previsivelmente seriam abordadas. O grande twist, que abre um diálogo direto com o poder das tecnologias de comunicação – e com o cinema, em certa medida – dá uma revigorada na obra, uma vez que se encaixa perfeitamente na maioria das falhas que, até então, indicavam uma preguiça (para dizer o mínimo). O grande problema de Bloodshot é que não parece saber muito bem o que fazer com suas boas ideias, além de apresentá-las de forma didática (com direito a falas bem mastigadas e expositivas). A ação, que até então se resumia ao combo shaky camera e cortes rápidos (inefetivo, porque pouco se via além de alguns slow motions), não melhora muito, pois a edição não desacelera e impede que contemplemos a coreografia ou os interessantes designs de alguns envolvidos.

A regeneração de Bloodshot e os membros mecânicos de Jimmy Dalton (Sam Heughan) remetem a outros elementos que deram certo em obras do subgênero de super-herói (como os poderes do Homem-Areia e os braços de Doutor Octopus, respectivamente), Já os olhos que tudo veem, de Tibbs (Alex Hernandez), poderiam ter trazido uma dinâmica diferenciada para uma cena de perseguição. Infelizmente, além de alguns shots de efeito, pouco é realmente aproveitado na prática. Ao invés de curtir a ação, a direção de Dave Wilson se preocupa em comunicá-la de maneira pouco inspirada (e quase disfuncional, dada a problemática edição). O maior exemplo disso é a sequência do primeiro ataque do protagonista, que, além dos elementos batidos já citados, se passa no escuro, sendo muito pouco legível. Ainda para um desejado padrão antes do twist, estaria bem abaixo da média. Talvez, se tivesse mirado mais em John Wick e menos na trilogia Bourne, teríamos uma amostra melhor da coreografia de luta (apesar de que um Bourne bem feito não seria de todo o ruim também).

Deve-se ressaltar, porém, que, de todas as lutas, a do final consegue se destacar das outras. Nesse caso, a edição interfere menos, a câmera é mais precisa e a iluminação high key expõe melhor os detalhes – além do setting adicionar um pouco de atratividade, ainda que não seja nada particularmente memorável. Por outro lado, o mesmo não pode ser dito do humor, que sofre com piadas de gosto bastante duvidoso (algo meio 5a série), e um timing cômico sofrível, ficando, inclusive, isolado do contexto algumas vezes (há uma cena com Siddharth Dhananjay que literalmente só está presente para estender uma piada já não muito engraçada sobre o tamanho de genitálias). Por sorte, esses momentos não ocupam grande parte da projeção, deixando espaço para os monólogos explicativos e a ação pouco empolgante. Ainda assim, o personagem de Lamorne Morris sofre muito com isso, porque sua personalidade é toda construída em cima do estereótipo de nerd excêntrico, apelando mais para o humor.

Mas nem só de inconsistências o filme se sustenta. Além do twist tirado da cartola, há, sim, algum espaço para conceituações visuais falarem mais alto que os próprios personagens. Imagens como a de um Vin Diesel constantemente se reconstruindo através de efeitos visuais aparentes – da mesma forma que desconstroem elementos de seu artificial passado -, ou um Guy Pearce entusiasmado, apresentando ao protagonista as possibilidades que a tecnologia moderna alcançou, falam bastante por si só. Infelizmente, nada disso é suficiente para superar a ineficácia de sua condução, fazendo-nos perguntar o que poderia ter sido nas mãos de realizadores mais engenhosos. Reforçando: se o humor rudimentar e a ação ineficaz estivessem pontualmente ajustadas ao texto, não teria o que criticar nesse sentido, só que não é o caso. Não parece uma opção consciente, apesar da fala final poder indicar um reconhecimento de suas limitações (ou é só mais uma piada gratuita mesmo).

Vale reconhecer, porém, o esforço de parte do elenco. Enquanto Sam Heughan fica reduzido a um papel unidimensional (que talvez até funcione num nível de subtexto), Toby Kebbell consegue demonstrar seu talento no breve tempo de tela que possui. Guy Pearce é outro grande ator que acaba sendo reduzido a um papel de poucas camadas, apesar de sua escalação ser uma bela piscadela para os que acompanham sua carreira (e tem uma fala que é uma direta referência a isso). Já os principais Vin Diesel e Elza Gonzáles possuem uma intensidade importante para seus personagens, mas, em momentos mais dramáticos, não conseguem ser tão magnéticos. Dada a proposta, porém, talvez isso nem seja tão necessário mesmo.

Com tudo isso, podemos dizer que Bloodshot certamente pode agradar o espectador casual em busca de uma boa história, mas também não faz o bastante para permanecer com o mesmo. Elogio a intenção de subverter o olhar positivista sobre os avanços tecnológicos no modelo de sociedade vigente (algo que também não é inédito, claro), e a capacidade de comunicar esse subtexto cinematograficamente, mas, como experiência estética, é muito desestimulante. Não tem uma execução tão perspicaz quanto a trama exige, apesar de todo o design da produção, de filme de super-herói meio envergonhado, poder apelar para uma nostalgia dos anos 1990 sem muito esforço. Quem sabe, numa eventual sequência, haverá um upgrade?

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