Um grisalho Antonio Banderas se encontra imerso numa piscina. Ele medita quando a câmera revela uma extensa cicatriz em seu torso. Com essa imagem, Pedro Almodóvar inaugura Dor e Glória – com maior ênfase à primeira palavra do que à segunda. Aqui, o cineasta se mostra apegado ao peso da idade, tanto física quanto espiritualmente falando.

Curiosamente, é quando fala da dor física mesmo que sua voz soa mais urgente e contagiante. Numa notável sequência animada, acompanhada de um monotonizado voice over de Banderas, descreve tudo que sente – contando, inclusive, com recursos sonoros mais apelativos. Essa quebra no formato convencional de ficções é uma das poucas em meio a uma narrativa mais comportada (principalmente se comparada a alguns de seus maiores sucessos). Não há grandes reviravoltas ou muitas das artificialidades das quais comumente se utiliza, sendo um filme menos cínico – o que não necessariamente implica numa qualidade maior, já que essa característica é um dos diferenciais de Almodóvar.

Dito isso, é exatamente o que se imaginaria de uma cinebiografia feita pelo diretor, com toda a sua identidade visual presente. Os sets e figurinos são coloridos e de diferentes formatos, ainda que de maneira funcional à trama. A fotografia não força muito a saturação, reconhecendo a vivacidade já presente nas cores dos cenários e das roupas. É um filme quente e de bastante textura, sem parecer se esforçar muito para alcançar tal efeito.

Outros velhos hábitos do diretor e roteirista também seguem firmes e fortes, como a presença da metalinguagem e o diálogo intenso com outras formas de arte. Além da já citada sequência animada e da constante presença de quadros, grafites e afins, temos uma longa e central cena toda conduzida através de um monólogo teatral (interpretado vigorosamente por Asier Etxeandia). Ainda que tudo pareça justificado pelos contextos colocados, essa característica não deixa de exprimir sua ousadia na forma de contar histórias aparentemente simples.

Há, porém, seus momentos de digressão, que por mais que sejam importantes para o autor enquanto desabafo, pouco estimulam o espectador (tirando, talvez, a curiosa ambientação). Ainda que ajudem a aprofundar o estudo do personagem, os acontecimentos não parecem ter uma conexão direta com o presente, não formando muita liga – o que, é claro, pode ser proposital. Talvez a intercalação entre os dois períodos na vida do protagonista sirva mais para evidenciar um contraste entre o passado mais simples e um presente financeiramente próspero, mas desafiador e incerto. Por mais que isso possa implicar num saudosismo pouco refrescante, não deixa de fazer sentido dentro da sinceridade do autor. Além disso, os flashbacks ganham um sentido maior no final, deixando uma potente e elegante declaração de amor ao cinema. Mais uma reviravolta típica de Almodóvar, colocada em uso de maneira surpreendentemente pessoal.

Não se sabe o quanto da vida do cineasta há na história do protagonista, mas isso não diminui a intimidade do relato. A caracterização de Banderas também cria comparações inevitáveis com o realizador, apesar de nunca parecer caricata. O ator entrega uma atuação natural e emocionalmente carregada. Todo o peso na rotina dele é transmitida através de um silêncio reticente (e nem sempre literal) e olhos marejados. Apesar da descrição indicar um personagem pesado e moroso, é, na verdade, uma figura bastante carismática, com momentos bastante engraçados. Sua dinâmica com a mãe e o personagem de Etxeandia proporcionam bastante diversão e, por vezes, comoção.

Apesar das pontas soltas deixadas pelo desejo de compartilhar demais, Dor e Glória nunca deixa de ser um retrato perfeito e um desabafo honesto de seu autor. Pode desanimar espectadores em busca de algo mais frenético como Má Educação ou Mulheres à beira de um ataque de nervos, mas certamente deveria interessar aos fãs do diretor. É uma obra madura, reflexiva e corajosa de um dos cineastas mais cultuados da atualidade.

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