Para falar de forma direta sobre o que aconteceu no último episódio de Game of Thrones, me darei a liberdade de comentar abertamente os detalhes do episódio. Lá vai: Daenerys partir para um ataque covarde sobre a população de King’s Landing, após uma investida bem sucedida contra o exército de Cersei, pode até não ser surpreendente (o último episódio já estava indicando algo do tipo), mas não deixa de ser chocante. Daenerys Targaryen, a quebradora de correntes e mãe dos dragões, provavelmente a grande heroína da série nas primeiras temporadas, se revela uma tirana, como o seu pai. Esse fato tem um peso – algo que estava faltando há tempos na produção. O roteiro vinha trilhando um caminho confortável para os fãs, provavelmente por conta de sua crescente popularidade. Com isso, a série foi se descaracterizando, mas agora (antes tarde do que nunca) parece ter voltado à sua antiga forma.

Apesar do contexto fantasioso, Game of Thrones sempre foi sobre a imprevisibilidade humana e suas consequências catastróficas. Foi o que a diferenciou das adaptações de Senhor dos Anéis, em primeiro lugar (além dos palavrões, da violência gráfica e da nudez). Aqui, os mocinhos morriam por fazer a coisa certa (ou por pura inocência) e os caras ruins poderiam se tornar heróis, apesar de terem errado no passado (pegue Jaime como exemplo). Porém, mais ou menos a partir da quinta temporada, o roteiro foi ficando previsível (com exceções pontuais). Tudo caminhava para uma grande batalha com os sobreviventes, sem se importar muito com a atratividade do caminho. Moldar heróis para matar zumbis de gelo foi se tornando mais importante do que explorar suas mentes e mostrar interações de maneira mais intrigante ou reveladora. Tudo estava muito preto no branco, porque já tínhamos ideias bem estabelecidas dos personagens e de seus objetivos.

O episódio anterior já começou a mexer nisso, porém, foi em The Bells que as idealizações sobre os personagens finalmente foram desconstruídas. Obviamente, esse é o caso de Daenerys, mas não é a única: o nobre Jon Snow se demonstra um fraco, o racional Tyrion cede ao emocional, a implacável Cersei chora por sua vida e a valente Arya desiste de sua tão cobiçada vingança. O mais interessante é que essas fragilidades já estavam perceptíveis o tempo todo, mas não dávamos tanta importância porque não tinham consequências reais para o desenrolar da trama. Agora, isso finalmente mudou: os “heróis” promoveram um massacre, enquanto a “grande vilã” cavou a própria cova. E, ainda que a decisão de Daenerys soe conveniente, apressada e bruscamente desenvolvida, é o que desencadeia essa sucessão de decepções que coloca a série de volta nos trilhos. Com essas corajosas escolhas, Game of Thrones nos mostra, mais uma vez, a que veio.

Claro que nem tudo é perfeito: há uma quantidade excessiva de falas expositivas e um melodrama que costuma soar artificial. Com um distanciamento maior, os eventos poderiam ter ainda mais força, só que a intenção não deixa de prevalecer. Sua iconoclastia característica das primeiras quatro temporadas está de volta, destruindo maniqueísmos e soluções fáceis. Tudo bem que, dado o desenvolvimento da personagem, é difícil de acreditar que Daenerys, diante de uma opção pacífica, queimaria inocentes. Ela já se mostrou autoritária no passado, mas não de forma tão desmedida. Pode ter sido um salto, causado pela falta de atenção que a temporada tem dado à ela, mas tudo isso se torna secundário à sua mensagem sobre o poder, a imprevisibilidade do humano e o problema de cultivar líderes.

Tirando essa questão central do caminho, há mais a ser destacado: o arco de Clegane é um exemplo de como se entregar fan service. Um dos melhores personagens da série, ele foi um homem que viveu da vingança, e quando isso está para ser consumado, é tão brutal, potente e frustrante quanto deveria ser. A maneira como o diretor Miguel Sapochnik utilizou o fogo – seu grande medo – na construção das imagens dá uma proporção épica à luta. Seu desfecho também é certeiro, por mostrar a incapacidade que o personagem tem de se satisfazer, e sua conformação com esse fato. Uma conclusão digna para “o Cão”.

Além disso, tivemos sua emocionante despedida de Arya, que protagoniza algumas das sequências mais agonizantes do episódio. Considerando o que ela passou, sua sobrevivência parece um pouco forçada (sendo uma das figuras mais populares atualmente), mas será interessante saber como ela foi afetada pelos eventos que presenciou. É através de seu olhar que temos uma ideia da proporção que o ataque teve.

Fazia tempo que Game of Thrones não causava tanta comoção. É uma pena que tudo tenha se desenvolvido de maneira tão deselegante, mas isso não tira os méritos de The Bells, individualmente falando. Os roteiristas tentaram recuperar o conceito da série, e estávamos há tanto tempo sem que é capaz de muitos não perceberem. Ainda assim, tornou tudo mais interessante para o series finale, apesar de dificilmente conseguir fechar à altura. Mas aguardemos… Quem sabe não nos surpreendem mais uma vez?

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