O potencial de um drama como Meu Anjo é apresentado logo na primeira cena, em que vemos a menina Elli (Ayline Aksoy-Etaix) e sua mãe Marlène (Marion Cotillard) deitadas em uma cama, demonstrando gestos de carinho uma pela outra. Logo notamos que existe uma inversão de papéis naquela relação, em que Elli parece muito mais adulta do que Marlène. Ao longo do filme, a ideia inicial é comprovada e somos inseridos em uma difícil rotina de mãe e filha.

Marlène é alcoólatra e vive várias noites de excessos, deixando Elli, de 8 anos, sozinha em casa. Mães como ela podem ser encontradas em qualquer lugar do Brasil. Sua dificuldade é uma doença, mas ao mesmo tempo a personagem têm atitudes duvidosas que nos fazem repensá-la. O problema é que existe uma falta de equilíbrio na apresentação dessas atitudes, fazendo com que vezes Marlène pareça estar arrependida e outras continue totalmente negligente. Isso poderia ser resolvido ao final, mas a questão é deixada em aberto, prejudicando assim a nossa empatia com a personagem e como a observamos. Acreditarmos na mudança dela é muito difícil e o roteiro não sabe estabelecer isso bem.

Existe um tema central dentro de Meu Anjo: o abandono materno. Ao mesmo tempo, assuntos como bullying, paternidade, imprudência escolar e amadurecimento precoce são inseridos no roteiro, mas tudo não é bem sucedido. Enquanto a relação entre Marlene e Elli é interessante, tendo altos e baixos bem construídos – como a cena em que a menina se esconde no armário para a mãe não vê-la -, outros temas entram e saem sem conclusões ou explicações. A escola, por exemplo, se mostra preocupada sobre a mãe de Elli, mas depois isso se perde completamente.

A inserção do personagem Julio (Alban Lenoir) também é problemática. Apesar de Lenoir estar bem no papel, ele não possui um backstory devidamente desenvolvido, dificultando a sua função dentro da trama.

A grande força do longa está na interação da dupla Marion Cotillard e Ayline Aksoy-Etaix. Ambas as atrizes estão incríveis. Cotillard traz momentos ótimos na pele de uma mãe omissa, mas quem realmente brilha é Aksoy-Etaix. Em seu primeiro trabalho, a menina é carismática e demonstra bastante talento em cena, tornando as sequências de Elli emocionantes e de gerar lágrimas.

A música instrumental, reforçada pelo som do piano ao fundo, é essencial para criar o sentimento que o filme pretende gerar no espectador. É preciso destacar também a bela fotografia, que nas cenas noturnas possui um estilo neo-noir bastante destacado.

Meu Anjo é um drama carregado de emoção, que consegue nos sensibilizar em sua grande parte. Mas o tom é problemático, deixando vários momentos bem arrastados, além do roteiro não conduzir perfeitamente a narrativa. Ao final da sessão, a sensação é de que muito faltou para o resultado ser mais positivo.

Meu Anjo foi exibido pela primeira vez no Festival de Cannes 2018 e chega em 25 de outubro nos cinemas do Brasil.

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