Numa piscina olímpica, posicionada abaixo de uma bandeira dos Estados Unidos, o filme se inicia. A cartela de título surge exatamente quando a câmera, parcialmente submersa na água, captura o momento em que duas nadadoras mergulham para competir. Com isso, cria-se um aparente paralelo entre as presas e os predadores do longa – papéis que, no caso, constantemente se invertem. Os jacarés – os supostos Predadores Assassinos, do título em português – começam o longa aprisionados numa fazenda de criação, como indica uma placa. Um furacão chega e desestabiliza o ambiente (isto é, após a desestabilização promovida pelo próprio ser humano, lá atrás), ao ponto de alagá-lo por completo. As presas, agora soltas, se tornam predadoras – e os humanos, por ali perdidos, as inevitáveis presas.

O roteiro de Michael e Shaw Rasmussen parece muito interessado nesse jogo de sobrevivência mais primal – o fato da protagonista (vivida pela mais nova Scream Queen, Kaya Scodelario) ser nadadora, dominando minimamente o local de caça dos predadores. Daí, entra uma valoração de toda a pressão e espírito de competitividade estimuladas pelo pai (interpretado por Barry Pepper) – algo que aparentemente custou caro para a relação entre os dois. Só nessa decisão (que é previsível bem antes de ser manifesta), revela um tom conciliatório entre gerações – como se toda a frenesi perfeccionista imposta visasse o bem-estar (e, como indica o contra-plongée luminoso no final, uma sublimação) dos indivíduos nele inseridos. É um argumento pelo absurdo que, como de costume, dificilmente funciona para quem possui convicções distintas ou um grau sadio de relativismo, mas pelo menos sustenta todo o propósito mercadológico do produto: diversão escapista.

Como puro filme de sobrevivência, privilegiado por ataques de jacarés, Predadores Assassinos não deixa muito a desejar. Os efeitos especiais e a maquiagem convencem perfeitamente (ao ponto de dar nervoso em alguns momentos mais explícitos), a edição de som é suficientemente crível e a decupagem calculista do diretor Alexandre Aja, aliada a uma música típica de longas do gênero e edição atenta, garantem um clima tenso e até alguns sustos. Pela qualidade dos efeitos visuais, a fotografia não se limita às sombras, garantindo versatilidade maior na tentativa de surpreender e prender a atenção do espectador. Se perde um pouco nesse sentido nos momentos entre ataques, mas isso provavelmente se deve mais a uma falta de ação cênica equivalente (o que deveria ser corrigido por escolhas mais criativas da direção) do que a uma falha na execução.

Apesar da discrepância não parecer despropositada, partindo de um longa supostamente despretensioso, com estética à la filme B, talvez fosse preferível um desprendimento maior de um didatismo funcional e mais investimento no potencial anárquico das sequências de ação. Em um momento ou outro o longa indica que seguirá por vias menos convencionais, mas sempre acaba se contendo – ainda que convenientemente ignore as óbvias consequências de uma mordida de jacaré. Nesse meio termo entre o absurdo e o realismo, se torna um pouco insosso, apesar de nunca falhar no que se propõe.

Para além do subtexto básico e das competências dignas de um terror bem-sucedido, pouca coisa se destaca. Há uma cena dramática importante para o investimento emocional nos personagens, e funciona graças à qualidade dos atores e do texto (as emoções e dramas relatados por pai e filha são bastante relacionáveis). Até o fato de ser completamente expositivo se justifica pela urgência da situação – como se a tensão presente engatilhasse a declaração de seus sentimentos mais profundos. Há um potencial metafórico em algumas cenas e elementos específicos, mas não passariam de suposições arbitrárias e dependentes do grau de criatividade e/ou capacidade de interpretação do espectador, que, no final, pouco adicionam ao que já está colocado mais abertamente. Tudo ajuda a estabelecer, porém, uma estética americanista que casa muito bem com o discurso.

Inevitavelmente mais pretensioso do que um mero terror escapista – apesar de se passar perfeitamente por um – Predadores Assassinos deve, sim, satisfazer quem só busca por uma dose fácil de adrenalina. Ele aproveita bem sua premissa, e faz bom uso dos clichês do gênero, só que, ironicamente, talvez jogue seguro demais para se sobrepor à competição.

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