Como tornar um clássico da literatura, dos anos 1860, uma obra relevante, sendo que mais de cinco adaptações foram feitas para o cinema? Para Greta Gerwig, a resposta é simples: encontrar o lugar perfeito entre a fidelidade e atualização, resultando em uma releitura moderna. Assim, a versão da cineasta para o livro “Mulherzinhas”, de Louisa May Alcott, se torna uma grata surpresa ao definir diálogos com o nosso contexto social.

Em Adoráveis Mulheres, somos apresentados às irmãs Jo (Saoirse Ronan), Amy (Florence Pugh), Meg (Emma Watson) e Beth (Eliza Scanlen) na rotina domiciliar, em plena Guerra Civil Americana. Apesar da grave circunstância, o quarteto não perde a alegria tão característica que domina a casa em que vivem, junto da mãe Marmee March (Laura Dern). A diretora destaca esse aspecto com cenas dinâmicas e bastante energia, e acabamos observando que a agitação, quando as irmãs estão juntas, transforma qualquer lugar. Esse fator aproxima elas da família Laurence, cujos integrantes ainda estão desolados com a perda da matriarca. É como se Lady Bird: A Hora de Voar, projeto anterior da cineasta, fosse uma espécie de (ótimo) teste para ela conduzir o dia a dia sem parecer monótono. Agora, com mais de uma protagonista.

Para explicar minuciosamente os fatos, Greta, também sendo responsável pelo roteiro, intercala a narrativa entre o presente e passado. Aos poucos, ela revela os acontecimentos anteriores que influenciaram o agora, fazendo o público embarcar na história sem tornar o longa confuso. Estabelece, com louvor, as conexões entre os períodos, filmando determinadas cenas com os mesmos planos e ângulos – o que acaba funcionando ao apelo emocional da obra. A cinematografia juntamente reforça essa escolha, diferenciando as fases através da fotografia: dias ensolarados e cores quentes no antes, enquanto atualmente os tons frios e tempos nublados dominam. Esse detalhe define como a esperança dentro da casa foi se dissipando, porém, a união da família sempre reacende a casa. Além disso, o fundo musical, destacado pelo piano, muda gradativamente conforme o estado das situações.

Dentro do grupo, Jo é a que apresenta objetivos mais diferentes e “ousados”, tendo aquele sentimento de não aceitar os padrões regidos para as mulheres. Escritora apaixonada, ela tenta crescer no meio, ainda que o momento não seja propício para seus textos serem publicados sem cortes. O roteiro mostra que essa personalidade cria alguns conflitos com as pessoas que vive e, ainda assim, a personagem mantém sua posição. Nota-se bastante isso nos diálogos com a tia March (Meryl Streep, sempre ótima): a parente já tem experiência de vida e viveu o patriarcado, dando os conselhos que acredita serem os corretos a se seguir. Jo ouve, entretanto, ela é progressista e quer trilhar seu próprio caminho.

A jovem tem um amor incondicional pelas irmãs, independentemente das diferenças, e o texto desenvolve isso em pontualidades. Sua relação com Amy, por exemplo, possui uma faísca de rivalidade e desavenças, mas, acima de tudo, Jo preza pelo bem estar dela – e vice-versa. O mesmo vale sobre Meg e Beth, que também possuem sequências de discussão com Jo. Mesmo que Saoirse, repetindo sua parceria com Greta, seja a grande estrela, Emma, Florence e Eliza ganham seus devidos momentos de brilho, já que todas as personagens são bem desenvolvidas. As quatro possuem muita química em cena, estruturando a força feminina que Adoráveis Mulheres tanto precisava. Vale pontuar que Saoirse e Florence são as que protagonizam as melhores partes, cada uma demonstrando seu grande talento.

Sobre questões narrativas, a cineasta erra a mão ao colocar diálogos muito expositivos sobre a situação da mulher na época. É como se tivesse que deixar esses aspectos bem claros para o espectador, mas o conhecimento histórico e o próprio desenvolvimento do filme já expõem com perfeição. Outro ponto é que, apesar de determinado fato sobre Jo estar presente no livro, o roteiro não apresenta isso sem que se torne controverso, produzindo um sentimento ambíguo ao final. Felizmente, os erros são poucos nessa bela adaptação.

Em considerações finais, Greta demonstra que uma nova versão é sempre bem-vinda, desde que tenha um diferencial. Seu olhar atento, toque pessoal e elenco incrível foram imprescindíveis para o longa ser tão emocionante e importante para o público. Relacionando com o filme, cito Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”.

– Filme assistido durante o Festival do Rio 2019.

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