No espaço sideral, repleto de estrelas, os créditos iniciais aparecem. Um singelo movimento de câmera para a esquerda revela um grande planeta azul – não se trata de Naboo, mas, sim, da Terra. Não é Star Wars, mas, sim, Bacurau.

Passado num futuro não muito distante, o longa, dirigido pela dupla Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, conta a história de uma pequena cidade no interior do Nordeste que se descobre fora dos mapas. A partir disso, uma série de acontecimentos estranhos começa a perturbar os moradores. Qualquer informação a mais sobre a trama poderia antecipar as diversas surpresas que o roteiro reserva. O que se pode dizer, por ora, é que, como vários outros sci-fi, Bacurau vai ao futuro para falar do presente e, no caso, faz até mais do que isso: também fala do passado, e não de forma saudosista ou vazia. Não, Bacurau evoca o passado como uma força atemporal, colocando a história de lutas e conquistas do povo nordestino como guia: sua maior arma diante de homens vis e sedentos por sangue. Mas, ao contrário do que pode parecer pela breve exposição, o longa não passa muito tempo contextualizando e justificando as coisas. Não tenta explicar o inexplicável e confia no poder das imagens – e no repertório do público, é claro – para preencher os vazios. É um filme que funciona muito mais no campo da alegoria.

No caso dos antagonistas, ilustra os efeitos de uma cultura belicista, que dissemina um falso senso de superioridade através da busca incessante por violência e prazer – intrinsecamente ligadas pelos seus adeptos, quase como num transe permanente (o que o longa mostra muito bem, dentro das limitações do formato). Em contrapartida, cria uma expectativa pela reação a tanta dor e injustiça. É o famoso efeito panela de pressão, que, quando apita, cria um sentimento catártico. Até então, a respiração ficava curta, tamanha a tensão – que é eficazmente construída pela edição bem compassada (tão paciente quanto precisa) e a implacável brutalidade com a qual os ataques são retratados. Cada golpe tem muito peso, intensificando ainda mais a experiência.

Só no que já foi mencionado, se distancia bastante da leva de filmes sci-fi mais populares, um pouco mais anestesiados em suas dinâmicas (para o bem ou para o mal). Comparativamente, quase não é um sci-fi mesmo, já que tem uma estética bem realista e elementos tecnológicos muito próximos do que já observamos na atualidade. Isso, por si só, já é um baita argumento, feito de forma muito consciente e irônica (até porque não larga de jeito nenhum as transições de cena à la Star Wars). É para ser mesmo esse futuro meio estagnado, pretensamente distante mas, na prática, muito próximo. E se, por um lado, essa aproximação traz muita tristeza ao longo da projeção (afinal, lida com feridas recentes e presentes), também traz orgulho e alegria nas cenas mais inspiradoras (especialmente o final).

Em termos de tom, o filme tem a proeza de ser engraçado e, por vezes, escancaradamente paródico sem deixar de ser levado a sério (talvez porque a paródia seja uma reprodução verossímil da realidade). O humor, inclusive, mostra um pouco mais claramente as influências dos diretores (principalmente Mendonça Filho, comparando com outras obras de sua filmografia). Possuem, por exemplo, a mesma veia anárquica de Paul Verhoeven e o mesmo caráter satírico de Monty Python. Quanto à ação e aos momentos de mobilização popular, remete muito a Kurosawa e Eisenstein. Só que, em nenhum momento, deixa de parecer uma obra própria de seus autores, com uma concepção muito específica, que só poderia ter sido gerada no Brasil de hoje.

O elenco está todo muito convincente, e como é um filme sem protagonistas (a não ser a própria cidade), todos se revezam organicamente, sem muita disparidade. Apesar disso, Sônia Braga e Udo Kier se destacam. A primeira, em particular, é uma figura tão firme e, ao mesmo tempo, sensível, que é impossível não ficar impactado pela sua presença. Também vale citar Thomas Aquino e Silvero Pereira, ambos em papéis emocionalmente desafiadores, e Barbara Colen, com uma expressividade marcante.

Das especificidades técnicas, vale ressaltar a fotografia de Pedro Sotero, que ostenta composições visuais plasticamente belas (como a cena do funeral), e a potente música de Mateus Alves e Tomaz Alves Souza. É um pouco mais genérica do que precisaria ter sido, mas funciona incrivelmente bem.

Bacurau é um épico brasileiro que consegue traduzir cinematograficamente as mazelas que enfrentamos – e virtudes que carregamos – como nação. Exatamente por isso é esta montanha-russa de emoções, devidamente equilibrada graças à competência de seus realizadores. Sabe quando ser irreverente, trágico e entusiasmante, além de ser constantemente contundente e bem fundamentado em suas escolhas. É tão divertido quanto duro, mas ultimamente necessário e recompensador. Um verdadeiro grito entalado na garganta.

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