De Cães de Aluguel a Os Oito Odiados, do Velho Oeste à Alemanha nazista, o cinema de Quentin Tarantino é marcado por diversas peculiaridades que tornam seu estilo inconfundível. Seja na verborragia autofascinada, ou na composição visual hiperestilizada, o diretor transmite uma artificialidade convidativa, menos cínica do que genuinamente reverente à sétima arte. Sendo assim, uma Hollywood da década de 1960 parece uma ambientação perfeita para sua abordagem metalinguística e espalhafatosa – e seu filme mais recente, Era uma Vez em… Hollywood, comprova isso. O diretor nunca esteve tão à vontade e, quase que paradoxalmente, comedido.

Diferentemente de suas outras obras, Era uma Vez em… Hollywood parece mais interessado nos pequenos momentos – ou em ações que não requerem páginas de diálogos para comunicar – do que nas interações mais diretas e formais. Sua câmera é a personagem mais falante, intimamente acompanhando os protagonistas enquanto assistem a programas de TV, cuidam de seus cachorros ou dirigem pelas ruas de LA. Claro que não chega a ter um ritmo moroso: a trama ainda possui uma objetividade latente, que é bem encaminhada pela edição cirúrgica. Certas cenas, inclusive, deixam mostrar a costura, de tão picotadas que são (para efeitos positivos, na maioria das vezes). Apesar disso, o caminho de um ponto para o outro tende a ser mais dilatado do que a média, com um frequente uso de planos-sequência que exploram a riqueza da ambiência e de situações aparentemente banais.

Com toda essa introspecção, seus característicos e extensos diálogos ficam em segundo plano, sendo até intrusivos e explicativos demais em alguns momentos – e não de forma autoconsciente, como seria de se esperar do autor. Nesses casos, parecem ter sido inseridos por pura convenção. Isso fica ainda mais evidente quando entra sua narração em off, apesar de ser divertida e não permanecer por tempo suficiente para ser incômoda.

Se o longa perde alguma flexibilidade em sua dialogação, compensa com a retratação encorpada e calculada dos eventos colocados, auxiliando no estudo das personagens e do contexto social no qual estão inseridas. A relação entre Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e Cliff Booth (Brad Pitt) perpassa por discussões sobre classe e relações de trabalho, enquanto o arco de Sharon Tate (Margot Robbie) nos sensibiliza com a pura apreciação de suas conquistas.

Ainda há todo o núcleo hippie, que escancara ainda mais a desigualdade social daquela região. Enquanto seus integrantes catavam comida do lixo, estrelas de cinema viviam em grandes mansões, o que evidentemente constrói uma tensão. Tudo isso, aliado a um conhecimento básico da história (a influência maligna de Charles Manson, por exemplo) e das tendências do diretor, gera um efeito “panela de pressão” que dispensa da violência gráfica para causar impacto. Porém, a chegada da mesma é inevitável, o que torna o terceiro ato sufocante. É a culminação das duas horas de violência implícita (e às vezes explícita) testemunhadas anteriormente, cujo desfecho é mais conservador do que poderia ter sido, ainda mais vindo do diretor e roteirista por trás de Bastardos Inglórios. Independentemente de sua não-ambição (ou não-idealismo) nesse ponto, funciona para seus efeitos mais primais – o que deve bastar para a maioria.

Para a visão de Tarantino se concretizar, é fundamental também a competência dos atores, que, mais do que se tornar meros estereótipos, devem se aprofundar nos psicológicos de seus personagens, principalmente a dupla de protagonistas. No caso de Dalton, sua extrema sensibilidade serve como uma faca de dois gumes, tornando-o extremamente egocêntrico e fragilizado, mas também poderoso no exercício de sua profissão – o que é evidenciado numa incrível sequência completamente enfocada na força da criação artística. O momento em questão é tão imersivo que nos faz esquecer que estamos vendo um filme (ou melhor, um episódio televisivo) dentro de um filme, servindo também como um verdadeiro atestado para o talento de DiCaprio e a paixão de Tarantino por produções B do século passado.

Já a atuação de Pitt como Booth é muito mais discreta, uma vez que é um homem simples e de poucas palavras. O único traço mais transparente de sua personalidade é a fidelidade que tem por Dalton, servindo como uma espécie de “faz tudo” para o ator. Ao mesmo tempo, é intenso e estranhamente autoritário, fazendo dele uma figura controversa e quase policialesca. É interessante como se comporta no sentido de preservar uma pretensa ordem, quase como uma versão menos perturbada de Travis Bickle. Também tem pouco comedimento, proporcionando momentos bastante engraçados, como quando confronta Bruce Lee (vivido aqui por Mike Moh). Pitt está perfeito no papel, com um carisma muito natural e uma compenetração impressionante, fazendo o trabalho de caracterização parecer fácil.

Quanto ao resto do elenco, se destacam Margot Robbie e Margaret Qualley – a excêntrica Pussycat. Enquanto Robbie consegue transmitir muito bem a simpatia e graciosidade de Tate, fazendo com que nos importemos imensamente por ela, Qualley tem a atuação mais tipicamente tarantinesca que – não tem jeito – só o diretor consegue extrair de seus atores. Outros nomes, como Al Pacino, Damian Lewis, Emile Hirsch, Dakota Fanning e Bruce Dern, também funcionam, mesmo tendo pouco material para explorar.

Com um olhar reflexivo e uma proposta estética mais austera, Era uma Vez em… Hollywood representa uma maturação da fórmula de Tarantino. Mesmo descalibrado em alguns sentidos, mostra como o diretor ainda tem a capacidade de surpreender. É um filme que nos obriga a ver, entender e viver uma realidade que já não é mais, com estruturas assustadoramente similares às do nosso presente.

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