Depois de adaptações de quadrinhos bem-sucedidas na plataforma, a mais nova aposta da Netflix é I Am Not Okay With This, de Charles Forsman. Na passagem do material original para o meio audiovisual, a série adotou diversas características semelhantes a outras produções originais do serviço de streaming. Se por um lado temos a impressão de que ela foi criada com base em um algoritmo, por outro isso é incrivelmente efetivo. Na trama, acompanhamos Sidney Novak (Sophia Lillis), uma adolescente com muitos problemas juvenis – incluindo o relacionamento com a família e o cotidiano no colégio -, que também precisa lidar com o surgimento de seus super-poderes.

Como é destacado no cartaz do seriado, ele conta com os produtores de Stranger Things e é dirigido por Jonathan Entwistle, de The End of The F***ing World. O curioso disso é que I Am Not Okay With This pode ser considerado uma junção dessas duas séries, replicando o que deu certo nelas. Temos uma garota com habilidades telecinéticas que precisa aprender a controlá-las, um clima oitentista incluindo música e figurino – apesar de ser ambientada nos tempos atuais -, assim como uma temática adolescente sobre amadurecimento. Ao mesmo tempo, o tom mais dramático e cru sobre a vida conta com inspiração na outra obra de Entwistle. Ela ainda tem a mesma curta duração de episódios de The End of The F***ing World, que ficam em torno dos vinte minutos, o que facilita muito na maratona.

A série é estrelada por Sophia Lillis, que vem ganhando cada vez mais notoriedade desde It – A Coisa. Ela convence como uma adolescente esquisita, solitária, mas, sobretudo, humana, tornando-se facilmente relacionável para o público. A atriz demonstra muita naturalidade, principalmente nas cenas mais dramáticas, como a maneira que lida com a morte do pai. Outro destaque é sua narração em voice-over – que inclui nuances na atuação apenas pela voz -, colocando-nos dentro da cabeça da personagem sem ficar expositivo, complementando os eventos (graças ao ótimo texto).

Uma das características mais legais de sua personagem é como ela sempre parece estar a ponto de explodir e tenta se segurar, sabendo das consequências que isso pode ter. Também é interessante o fato de suas emoções e a puberdade estarem diretamente ligadas aos seus poderes, e a forma como o roteiro desenvolve isso gradativamente. Sua história de origem tem grande inspiração em super-herois adolescentes, mais voltada para o lado do terror, chegando a lembrar Carrie, a Estranha.

O elenco ainda conta com personagens de suporte para a protagonista, que também demonstram carisma e convencem nas interações, além de serem muito bem construídos e apresentarem uma excelente química com Lillis. Destaque para o divertido Stan (Wyatt Oleff) – também de It – A Coisa – que faz o papel do interesse amoroso. Já a confiante Dina (Sofia Bryant) representa uma amizade cheia de altos e baixos, mas muito verdadeira.

Mesmo que lide com assuntos sérios e pesados, como o estresse pós-traumático, I Am Not Okay With This ainda encontra espaço para momentos mais leves e descontraídos, que são muito bem-vindos tanto para o público quanto para a vida de Sidney. Como exemplo, temos sua relação com o irmão mais novo, responsável pelo caráter mais ingênuo e lúdico da trama, assim como a dinâmica no colégio. Uma das melhores sequências gira em torno de um grupo de cinco alunos que está em detenção, claramente inspirado em Clube dos Cinco, outra referência oitentista.

Mesmo que pareça uma produção derivativa, a série tem potencial para encontrar sua própria identidade através da expansão de seu universo, principalmente após o final aberto da primeira temporada. Há tantos elementos que têm a cara da Netflix que era difícil este projeto dar errado – e realmente não deu.

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