Grande parte dos dramas existenciais possuem o intuito de transmitir alguma aprendizagem, através do arco de seus protagonistas. Em Comer, Rezar, Amar (2010), por exemplo, Julia Roberts precisava redescobrir as questões realmente importantes de sua vida. Já em Livre (2014), Reese Witherspoon resolve se aventurar pela natureza selvagem, após várias turbulências emocionais. Agora, é a vez de Cate Blanchett viver uma personagem com dilemas parecidos em Cadê Você, Bernadette?, novo longa de Richard Linklater (conhecido por Boyhood: Da Infância à Juventude, de 2014).

O cineasta, que também assina o roteiro (junto de Holly Gent Palmo e Vince Palmo), tem em suas mãos uma história com potencial: Bernadette Fox é uma famosa arquiteta que começa a se ver sem rumo, mesmo que tudo ao seu redor esteja aparentemente nos eixos. Depois de passar por vários problemas, ela decide, então, sumir, fazendo a filha Bee (Emma Nelson) e o marido Elgie (Billy Crudup) irem à sua procura. Essa clássica premissa, baseada no livro homônimo de Maria Semple, pode soar repetitiva, mas se enriquece com a forma como os fatos vão se desenvolvendo.

Linklater estabelece com tranquilidade a sua narrativa, querendo dar enfoque nos relacionamentos. Por um lado, essa escolha soa bastante funcional, já que são nas interações que conhecemos verdadeiramente a essência dos personagens. Em uma cena no carro, vemos ali a linda relação de mãe e filha que existe entre Bernadette e Bee, baseada na parceria e compreensão. As interpretações de Cate e Emma dão consistência para acreditarmos nessa ideia. Esse ponto do roteiro, perfeitamente definido, se torna fundamental para a emoção e significados que o filme pretende transmitir nos minutos finais. No caso dessa cena, o momento ainda é embalado por “Time After Time”, de Cyndi Lauper. A escolha é proposital, já que existem versos da canção completamente literais com relação à trama. Isso, porém, não impede o funcionamento dentro do contexto.

O mesmo pode se dizer das conversas com o marido. Elgie não entende a esposa e nem a conhece realmente, sempre evitando olhar nos olhos – o que acaba tornando-o uma figura inicialmente detestável. Ao mesmo tempo, vê-se que ele está tentando melhorar a situação – detalhe do roteiro que impede, positivamente, a unidimensionalidade do papel. No caso da protagonista, para evitar o excesso de diálogos expositivos sobre ela, o longa equilibra com um recurso inteligente, mostrando uma espécie de documentário. O vídeo, utilizado em espaços bem definidos da trama, revela aos poucos não só a carreira e passado de Bernadette, como também as questões que provavelmente estão a incomodando. A própria reação da personagem ao assistir denuncia isso, instalando um leve clima de suspense.

Já por outro lado, essa estrutura soa por vezes monótona, pois existem cenas que não apresentam equilíbrio com a proposta dos diálogos. Como Linklater decide seguir por uma direção pouco inspirada, ele não consegue criar a dramaticidade que tanto se precisava na história. Esse aspecto acaba funcionando, em parte, somente pelas atuações do elenco, que conseguem dar alguma potência nas falas. Falta dinâmica em grande parte dos dois primeiros atos. Logo, é até surpreendente quando chegamos na ótima discussão entre Bernadette e a vizinha Audrey, interpretada com competência por Kristen Wiig. A sequência, ponto chave da trama, tem a energia que precisava, além de mostrar os dois “lados da moeda” das personagens.

Em determinado momento, Cadê Você, Bernadette? entra totalmente nos eixos, ganhando mais qualidades narrativas, e também estéticas. A câmera aérea passeia pela Antártida, destacando a fauna e as diferentes áreas da região. Assim, temos vislumbres de uma cinematografia apurada no filme, e é interessante notar o contraste frio do continente com os objetivos enfáticos dos envolvidos. Vemos, também, como esse estudo de personagem dependia de uma boa escalação para o papel.

Cate Blanchett está incrível em sua performance, mesclando com louvor a leveza, profundidade e o jeito debochado de Bernadette. O figurino despojado, marcado por roupas com suspensório, diz bastante sobre ela. A personagem poderia facilmente parecer antipática, mas o desempenho da atriz, aliado ao desenvolvimento do roteiro, criam uma figura devidamente compreensível aos olhos do público. Acabamos entendendo que, por trás dos comentários um pouco ácidos, existe uma mulher emocionalmente confusa e quase em depressão, precisando de ajuda para se reencontrar.

Equilíbrio narrativo é o que essa adaptação tanto precisava. Linklater erra um pouco a mão em sua proposta, tornando alguns detalhes relativamente problemáticos que prejudicam a entrega emocional do público. Felizmente, o longa consegue encontrar seu ápice, e o elenco dá conta do recado. Dentro de projetos com a mesma temática, esse é um dos mais fracos, porém, isso não diminui a sua qualidade, tendo seus devidos acertos.

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