As produções televisivas constantemente migram para as telonas, ou vice-versa. Esse não é um trabalho fácil, pois se tratam de mídias com maneiras diferentes de se trabalhar. Por um lado, Carcereiros – O Filme conseguiu se adaptar perfeitamente ao formato cinematográfico, oferecendo um entretenimento de ação de qualidade. Por outro, parando para analisar o viés narrativo, somos apresentados a uma série de exageros e conveniências que se desequilibram com a história, além de fugir bastante do material fonte.

No caso do longa, existe uma necessidade de “americanizar” a proposta. Observamos isso já na premissa: em mais um dia de rotina do presídio, os funcionários são surpreendidos com a chegada de Abdel Mussa (Kaysar Dadour), um perigoso terrorista internacional que passará apenas uma noite no local. A situação fica mais complicada, justamente porque a prisão já vive dias terríveis com a luta entre duas facções criminosas, cabendo a Adriano (Rodrigo Lombardi) manter o leve controle rotineiro.

A questão é que esse plot inicial não parece tão ilógico, com explicações sobre o fato através das críticas ao sistema político brasileiro. Os governantes pouco se importam com o que vem acontecendo dentro dos presídios, deixando todos (carcereiros e prisoneiros) à mercê da violência diária. O problema está precisamente no roteiro, escrito a quatro mãos (Marçal Aquino, Fernando Bonassi, Dennison Ramalho e Marcelo Starobinas), que não consegue encontrar coesão. Quando o argumento do filme tenta se enveredar por mostrar a realidade da rotina, ele soa perdido em meio ao foco de mostrar uma noite atípica do lugar. Acaba que tudo de mais profundo que a trama possa oferecer fica no âmbito do superficial, tornando os prisioneiros futuras vítimas da rebelião. O mesmo pode se dizer sobre os funcionários, onde Adriano parece ser o único “benfeitor”.

Desse modo, a inspiração no livro Carcereiros, de Drauzio Varella, soa rasa, sendo colocada nos inúmeros diálogos expositivos. Temos, então, um projeto que peca pelo excesso, não trabalhando tudo com o devido afinco e fugindo da essência brasileira da obra. Isso resulta, por exemplo, em um pouco aproveitamento na narrativa por trás do personagem de Kaysar, prejudicando o desempenho do ator. Com relação aos papéis de Dan Stulbach e Jackson Antunes, existe uma enorme importância sobre eles, que o filme resolve de maneira abrupta. O mesmo pode se dizer dos plot twists ao longo da história.

Como foi dito no início, Carcereiros – O Filme funciona dentro da proposta de ação. José Eduardo Belmonte traz uma boa dinâmica nas sequências de tensão, criando a adrenalina que tanto se precisa. O diretor, junto do roteiro, situa certas calmarias que são eficazes. Apesar da classificação etária alta (para maiores de 16 anos), em determinados momentos ele consegue deixar a violência gráfica um pouco comedida e, ainda assim, define bem a gravidade dos acontecimentos. Cada vez que os portões são abertos ou os tiros são disparados, a mixagem de som transita perfeitamente, tirando o fôlego do espectador. A cinematografia ainda apresenta bons vislumbres, com várias cenas apenas iluminadas pelas lanternas dos fuzis.

Claro que, para os já familiarizados, Carcereiros – O Filme funciona muito mais, pois já existe uma entrega emocional. Felizmente, para quem não assistiu às duas temporadas da série, confere esse derivado com tranquilidade. Informações nos diálogos dos personagens podem até determinar onde o longa se situa na franquia, mas ele funciona sozinho. No fim, o que vemos no todo é um entretenimento funcional, necessitando de acertos narrativos. Isso daria maiores significados às cenas reais inseridas nos créditos de abertura e encerramento do projeto.

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Digite seu nome aqui