A clássica frase “A vida é uma caixinha de surpresas” combina perfeitamente com a protagonista Kate (Emilia Clarke), de Uma Segunda Chance para Amar. Seja intencionalmente ou não, a trajetória da jovem é marcada por vários altos e baixos, definindo todas as situações que o filme apresenta. Por mais que tenha um apelo emocional muito forte e inúmeros clichês clássicos, Emma Thompson nos traz um roteiro com questões bem estabelecidas, personagens deliciosos e desenvolvimentos que tornam impossível não embarcar na trama.

Como o maravilhoso Klaus, esse projeto é a perfeita definição de “filme de Natal”, se inspirando (literalmente) nos versos da canção Last Christmas, de George Michael. Toda a mensagem sobre ajudar ao próximo está diretamente ligada ao significado da festividade. O lugar-comum do roteiro existe em todos os cantos e personagens, como a chefe rigorosa (Michelle Yeoh), o possível pretendente (Henry Golding) e até a mãe controladora, interpretada por Thompson. Esse caminho arriscado, da ausência de novidades no gênero, não se torna um grande empecilho, justamente porque é driblado pela forma como se desconstrói os estereótipos, estabelecendo uma história extremamente humana. Paul Feig foi a escolha certa para comandar, pois os close-ups e plongées, elementos característicos de sua direção, deram uma intimidade indispensável, além de ter evidenciado as performances dos atores.

Todos no elenco possuem bons desempenhos, mas é claro que os protagonistas se sobressaem. Clarke e Golding tornam Kate e Tom figuras carismáticas, já que ambos trazem ótimas interpretações para os personagens e criam uma química em cena essencial para a crença naquele casal. Como os diálogos foram bem escritos, existe uma naturalidade no desenvolvimento da relação entre eles – com destaque para a excelente cena no apartamento e os momentos no parque. O texto estabelece perfeitamente todos os papéis do enredo com clareza, o que acaba resultando em personagens bidimensionais. Ao longo da narrativa, o que acaba não funcionando é aquele ar de previsibilidade constante, atrapalhando determinadas ideias.

Por trás da auto sabotagem de Kate e seu jeito atrapalhado, utilizados como humor, também reside a explicação sobre o que acontece ao seu redor. Nesse ponto que está a desconstrução de Uma Segunda Chance para Amar, colocando todo um significado bastante dramático na história, que inclui o ingrediente sobre famílias disfuncionais. Ao observamos que a protagonista comete atitudes questionáveis, ela foge daquele aspecto de que tudo dá errado por ações alheias, ao mesmo tempo em que vemos nela uma pessoa em crise emocional. Além desses acertos no roteiro, Thompson também idealiza com dedicação o seu papel da mãe de Kate, um dos vínculos mais emocionantes da obra. Destaque positivo, inclusive, para as cores fortes da fotografia e do figurino, que dão energia. Quanto ao restante, é aquela típica trama em que mais detalhes são dispensáveis, pois não saber sobre os acontecimentos é o que faz ela funcionar.

O que vale mencionar é que, dentro das surpresas do longa, existe um plot-twist bem construído. Pistas são colocadas no roteiro sobre a real questão envolvida, dando um pouco de didatismo para a resolução. Porém, o mais interessante é que essa reviravolta pode ocasionar em diferentes interpretações, deixando o espectador livre para tirar suas próprias conclusões. Além disso, faz do projeto algo muito mais do que uma divertida comédia romântica.

Com mais esse, nota-se que a Universal Pictures trouxe, neste ano, uma leva de filmes de âmbitos “fantasiosos” (A Morte Te Dá Parabéns 2, Nós, Yesterday). E ainda teremos Cats no final do ano, para quem não se lembra. O estúdio deveria continuar investindo nesses tipos de projetos, porque está rendendo obras realmente muito boas e com diversidade no elenco.

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Digite seu nome aqui