Publicada entre os anos 1981 e 1991, a série de contos infanto-juvenis Histórias Assustadoras para Contar no Escuro, de Alvin Schwartz, foi alvo de polêmica pelo seu conteúdo violento e perturbador (com direito às horripilantes ilustrações de Stephen Gammell). Segundo as críticas, as histórias não seriam apropriadas para o público alvo, o que pode levantar um debate sobre a seguinte questão: o que torna a obra “infantil”? Talvez seja o apelo do universo sobrenatural criado, ou a simplicidade em sua forma de contar as histórias, sendo de fácil compreensão para todos. É dessa simplicidade potencializadora que carece a homônima adaptação cinematográfica da série, apesar do apelo se manter (o que os vistosos cartazes evidenciam muito bem).

Na trama da nova versão, dirigida por André Øvredal (A Autópsia) e co-produzida pelo renomado Guillermo del Toro, um grupo de jovens residentes de uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos encontra um livro de contos macabros escritos à sangue. As histórias, baseadas nas criações de Schwartz, começam a ganhar vida, amaldiçoando os adolescentes que delas se apoderaram. A premissa obviamente abastece um discurso metalinguístico referente ao poder destrutivo das narrativas, além de indicar uma homenagem ao legado do autor e ao terror como um todo, tentando integrar algumas de suas lendas a uma premissa típica de filmes estadunidenses do gênero. Porém, em pouco tempo de exibição (antes mesmo da ameaça central ser apresentada), a linha entre homenagem e falta de originalidade começa a ser apagada, com a adição maciça de clichês, que vão desde bullies inconsequentes até protagonistas estereotipados. Temos a nerd sensível, o piadista, o “lerdão”, a patricinha e o novato misterioso e reservado.

Os estereótipos em si não seriam o problema, já que – mais uma vez – poderiam servir mais como homenagem às tendências do gênero do que uma preguiçosa tentativa de imitá-las. A questão é que o longa não se mostra muito interessado nesses personagens ou no que acontece com eles, como se estivesse se apoiando na nostalgia para criar uma conexão com o público. A nostalgia pode ser boa (todos os cinéfilos devem ter aberto um sorrisinho ao ver A Noite dos Mortos-Vivos sendo exibido na cena do drive-in), mas não substitui um bom desenvolvimento de trama – do que o roteiro passa longe com diálogos expositivos, falas aleatórias e situações apressadas, muitas vezes causadas por decisões incrivelmente irracionais por parte dos personagens (até para os padrões do gênero). A direção meramente protocolar de Øvredal também não ajuda a aproveitar o contexto introduzido, que poderia até ser atrativo se filmado de forma minimamente particular ou poética. Parece que a preocupação principal é mover de uma locação (provavelmente familiar aos fãs do gênero, devo reforçar) para outra de forma objetiva, sem muita atenção para a qualidade da dinâmica no percurso.

Com a chegada à casa assombrada onde encontram o livro, há uma cena específica em que até parece que a coisa vai engrenar, com um uso impactante das cores, da iluminação, da câmera subjetiva e do espaço claustrofóbico de um dos cômodos – só que pouco se desenvolve a partir daí. Em pouco tempo, o foco volta para os clichês básicos, que simplesmente não conseguem replicar convincentemente (ou reimaginar de forma interessante) algum traço de humanidade. Talvez o que melhor resuma o problema aqui seja a falta de timing nas interações, que muito se deve à edição corrida também (não que o roteiro ajude). Com o decorrer da trama, a situação só piora, mas ao menos temos as aparições dos monstros para renovar nossas esperanças – o que infelizmente também acaba não vingando.

Apesar do notável esforço do departamento de arte e relacionados para reproduzir os efeitos dos desenhos de Gammell, os ataques das criaturas sofrem dos mesmos problemas do resto do filme, ainda se utilizando de truques baratos (movimentação abrupta e salto no som) para dar sustos. A ideia de personalizar os ataques de acordo com as vítimas – meio à la It: A Coisa – é promissora, mas teria mais efeito se realmente nos importássemos com os personagens, além de nem sempre conseguirem estabelecer um vínculo muito convincente. Acaba ficando ficando mais forçado do que qualquer outra coisa.

Isoladamente, as sequências que adaptam os contos The Red Spot e The Dream até funcionam. Se fossem curta-metragens, teriam sido minimamente bem-sucedidos, apesar de ainda não chegarem aos pés dos contos originais, principalmente por causa das alterações que sofrem para se adequarem à trama. Aliás, uma boa solução para o filme teria sido essa: uma tradução literal dos contos para as telas, compilados sem nenhuma ligação maior. Porém, compreende-se que a ambição da produção era outra. Buscavam contar uma história sobre o ato e efeito de contar histórias, dissecar a obra pelo que ela é, não pelo que ela disse. Ainda há todo o subtexto político atribuído a isso, evidenciado pelo arco do personagem Ramón (o “novato” citado anteriormente), as aparições de Nixon na TV durante a desastrosa campanha pela Guerra do Vietnã e o plot twist que revela o motivo por trás das assombrações. O diálogo com realidades sociais diversas é louvável (sendo, inclusive, uma marca do del Toro como cineasta), só que não adianta de muita coisa se todo o entorno não se sustenta. A própria discussão sobre o que alimenta as narrativas e como isso afeta as pessoas, ao final, acaba sendo reduzida a um sentimentalismo muito primário.

Em suma, fica aparente que, em alguma etapa da produção, havia o objetivo de alcançar algo muito maior do que entretenimento escapista ou simples adaptação de uma obra renomada. Porém, parece que algo se perdeu no processo, e o resultado acabou sendo a camada mais superficial que se poderia imaginar de um projeto com tamanha ambição. Histórias Assustadoras para Contar no Escuro tem bons efeitos especiais, algumas ideias interessantes e um material fonte riquíssimo que vale ser conhecido, mas entre a hipnotizante escrita de Schwartz e os artifícios batidos do longa, a primeira opção é preferível.

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