A maioria das animações da Laika Studios conseguem aliar, quase que perfeitamente, um bom roteiro com uma técnica de stop motion que transforma cada frame em verdadeiras obras de arte. É justamente esse processo o maior diferencial da empresa, em uma indústria consumida pelo 3D (não desmerecendo o uso do recurso), resultando em trabalhos atraentes e delicados. Cito isso, pois é o mérito principal de Link Perdido, a mais nova aposta do estúdio.

Nesse filme, observa-se que Chris Butler aproveita sua trama para realizar uma viagem visual. Passando por regiões como Londres, Nova York e os Himalaias, o diretor evidencia a riqueza dos cenários, detalhes e texturas (com ênfase nos figurinos, feitos artesanalmente). Em curtos momentos, principalmente quando os personagens não estão em tela, parece que a animação foi filmada nesses locais. Tudo numa escala grandiosa, transformando Link Perdido em uma espécie de épico sobre lendas e monstros – algo que já é mostrado nos primeiros minutos. Para os mais curiosos, tem um vídeo dos bastidores da criação (aqui).

Este é o segundo trabalho de Butler dirigindo, e o terceiro escrevendo, somente dentro da Laika. Em sua trama, ele utiliza a clássica história do Pé Grande para contar uma jornada sobre família e amizade mas, aqui, a figura mítica ganha o nome de Sr. Link. Essa premissa não traz muitas novidades narrativas, apresentando conceitos que soam reaproveitados de outros longas e questões que animações como PéPequeno (2018) e Abominável (2019) trabalharam melhor. Agora, culpar o projeto por “falta de criatividade” seria errado, até porque o último filme citado foi lançado antes desse nos EUA (aqui chega com sete meses de diferença). O argumento é que, como o roteiro pretende transmitir tantas mensagens, acabamos ganhando uma grande mistura que deixa determinados pontos na superficialidade.

Além da premissa, Link Perdido também fala de forma rasa sobre evolução e solidão. Com certeza, são discursos interessantes para se abordar, principalmente considerando a essência infantil que este filme possui, levando, então, reflexões pertinentes para as crianças. Butler deixa sua assinatura artística bem clara. Não por acaso, ParaNorman (2012), outro projeto dirigido e escrito por ele, foi considerado o “mais infantil” do catálogo do estúdio. O cineasta proporciona vários momentos divertidos, principalmente vindos da interação do Sr. Link com Sir Lionel Frost. O problema, em si, é a alternativa de Butler em exceder as piadas de humor físico em seu roteiro, repetindo algumas delas exaustivamente. Assim, elas perdem rapidamente a sua funcionalidade.

Entretanto, os personagens chamam a atenção. Sr. Link, por exemplo, age de forma literal ao que lhe dizem. Deste modo, muitas das piadas acontecem por causa desse aspecto. Além disso, seu drama pessoal torna-o bastante profundo, fazendo com que o resultado de sua jornada seja emocionante. Já Lionel possui um pouco de Sherlock Holmes em suas atitudes, criando um personagem excêntrico e que precisa lidar com o egocentrismo. A excelente Adelina é a clássica mulher do grupo. Com sua determinação e coragem, a personagem se torna uma figura feminina forte – seu diálogo final com Lionel é perfeito. O trio principal, junto dos secundários que vão aparecendo ao longo da trama, dão gás ao longa. Todos reforçados pela ótima dublagem brasileira.

Dentre eles, o mais interessante é Lord Piggot. Sua figura é uma evidente representação do magnata orgulhoso, que decide passar por cima de tudo e todos para atingir seus interesses. Com a existência desse personagem, o projeto ganha um viés político eficiente. Percebe-se, então, como o cinema está vivendo uma época onde os roteiros reforçam os males e desafios atuais da sociedade. Logo, não ache estranho caso você consiga assimilar o Lord com um certo líder de um país tropical.

Link Perdido é visualmente impecável e tem suas qualidades. Porém, a insistência em repetir as mesmas piadas incomoda; o excesso de mensagens, em um curto espaço de tempo, não funciona como deveria; e a trama se atrapalha levemente pelo caminho. Essas questões não diminuem a diversão proporcionada pelos personagens, só apenas denunciam que o roteiro precisava ter mais foco e estar devidamente condizente com a proposta.

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