Uma das atrações do último dia do Rio2C 2019 foi a exibição do filme Simonal, que teve a presença do diretor Leonardo Domingues e do ator Fabrício Boliveira, protagonista do longa. Após a sessão, entrevistamos os dois, que nos contaram sobre inspirações, desafios e o processo criativo por trás desta produção nacional.

Domingues nos contou como surgiu a ideia de produzir este filme: ele já havia trabalhado em Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, documentário brasileiro de maior bilheteria em 2009, levando mais de 70 mil pessoas aos cinemas. Em 2010, veio a ideia de levar a história para a ficção e para um público maior.

“Desde sempre a música dele já estava na minha cabeça, mas eu fiquei conhecendo a história do Simonal mesmo com Max de Castro que fez a trilha de um filme que eu fiz chamado 400 Contra 1. E aí conheci tudo do Simonal, família, tudo. Então era uma história que eu já conhecia bastante, já tinha um apreço em viver ela”, disse Fabrício Boliveira, o escolhido para interpretar o músico nas telonas.

O ator também falou sobre a relação com o cantor. Apesar de não serem parecidos fisicamente, ele tentou encontrar coisas que tinham em comum, como a paixão pela dança. Além disso, Fabrício não queria imitar o original, mas sim trazer algo novo para o cinema:

“Eu não queria ficar copiando ele, nem ficar copiando os trejeitos dele, então esse foi um espaço que me deixou mais livre. Já que gosto de dança, então vou dançar, então vou fazer isso acontecer. E aí é muito louco porque estudei muita coisa de livro, até porque queria me distanciar das imagens que já existem do YouTube. Quem quiser ver no YouTube, vê no YouTube. Quem vai pro cinema tem que ver alguma coisa nova, evidente. E sou eu fazendo o Simonal, então tem alguma coisa aí que tem que vir novo. Então comecei a viajar: ‘E se eu fosse o Simonal? Como eu lidaria?’. E é louco porque no filme tem alguma coisa que une a gente, que eu acho que é o fato da gente ser negro, ser artista, que faz com que os nossos movimentos sejam super parecidos”

Os números musicais são um dos pontos altos do filme, mas é possível perceber que ouvimos a voz de Simonal e não de Fabrício. O ator contou que, mesmo não sendo sua voz na versão final, ele realmente cantou nas cenas e isso é o que as tornam tão empolgantes e críveis:

“Eu não estou reproduzindo um filme dele, eu estou fazendo um número musical mesmo, como se eu fosse um cantor. Então eu trabalho o tempo inteiro a minha preparação como se eu fosse um cantor. Eu vivi isso. Fazia nebulização, eu cantei de verdade, fiz aula de canto durante meses, cantei tudo. Só que o que entra é a voz dele porque não tem comparação, né? Não dá pra eu disputar com o Simonal aí.”

Desde a primeira cena, a estética do longa impressiona. Ambientado nos anos 1970, a sensação é a de que estamos vendo um filme daquela época e não uma produção de 2019. Além disso, o uso de imagens de arquivo, em meio às cenas gravadas atualmente, não causa estranhamento. Segundo Domingues, o motivo para este resultado veio desde a escolha do material que seria utilizado:

“A gente só pesquisou imagens que a gente pudesse ter o negativo. Então nós pegamos o negativo, escaneamos em 4K, tivemos todo um trabalho justamente pra equilibrar e não ficar gritante esse corte de uma imagem atual que a gente tenha feito pra uma imagem de arquivo”.

Domingues também comentou a tendência de filmes sobre músicos brasileiros, como o recente Minha Fama de Mau, que conta a vida de Erasmo Carlos:

“Eu acho que tem realmente essa tendência. A gente vê, no Brasil, uma leva desde Zezé Di Camargo & Luciano, Gonzaga, Cazuza, Tim Maia, Elis, Erasmo… O Simonal eu acho que vem nessa onda. Mas um filme que me inspirou também foi o Ray Charles, assim como James Brown. Eu acho que é uma tendência porque são histórias já consolidadas. A história daquele personagem que o público já conhece um pouco, já sabe quem é… Então talvez seja mais fácil levar o público pra ir ao cinema assistir à história de um personagem que ele já conhece, que ele já tenha algum envolvimento”

Fabrício ainda ressaltou a importância do filme nos dias de hoje, como forma de discutir o lugar do negro na sociedade. Para o ator, este é o legado que o longa deixará:

“A gente precisa rever nosso passado pra gente alçar novos voos. […] É uma história que perdura. Você vê o filme e você vê que a história de racismo perdura nesse país. Então acho que o grande legado é rediscutir o lugar do negro na nossa sociedade. É sobre direitos.”

Simonal estreia dia 22 de agosto nos cinemas. Leia nossa crítica do filme, clicando aqui.

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Digite seu nome aqui