Desde que o mundo é mundo, o Coringa rouba a cena em todas as produções das quais participa. Em Batman (1989), Jack Nicholson foi indicado ao BAFTA e ao Globo de Ouro (como ator principal) pela sua versão do Príncipe Palhaço do Crime. Quase vinte anos depois, em 2008, Heath Ledger estava conquistando o mundo com o que viria a ser o seu maior papel: o marcante antagonista de O Cavaleiro das Trevas (tendo ganho, inclusive, seu primeiro Oscar). Isso sem mencionar os diferentes quadrinhos, animações e produções de outras mídias em que apareceu. Há algo muito apelativo na ideia de um homem fantasiado de palhaço espalhando desordem pela cidade – ainda mais em contraposição ao Batman, tido como grande símbolo da lei e da ordem (ainda que, paradoxalmente, tenha que constantemente infringir ambas para isso). Sendo assim, era questão de tempo até o vilão se tornar o protagonista de sua própria história nas telonas – e é isso que a dupla Todd Phillips (da trilogia Se Beber, Não Case) e Joaquin Phoenix (que dispensa quaisquer apresentações) fazem em Coringa.

A trama reimagina a origem do personagem a partir de Arthur Fleck – um comediante em aspiração que atua como palhaço para uma empresa terceirizada. Sua passividade diante da vida faz dele presa fácil para pessoas mal-intencionadas, em meio a uma Gotham socialmente conturbada. Essa ambientação é fundamental para a construção da trama, e Phillips faz questão de estabelecer isso desde o início, com o filme abrindo ao som de uma transmissão de rádio que relata uma greve de lixeiros.  A matéria, porém, só parece estar preocupada com o fato da medida estar afetando os bairros nobres da cidade. Ouvindo esse show de mesquinharia (atentamente ou não), Fleck se prepara para mais um dia de trabalho, forçando um sorriso em frente ao espelho. A maquiagem circense contrasta com a angústia na expressão de Phoenix, mas, independentemente de sua dor, deve sair às ruas para espalhar alguma alegria.

Depois de apanhar de um grupo de jovens, se contorce no chão, e a cartela de título é estampada na frente da cena. Ainda que esse prelúdio resuma suficientemente bem a ideia central do longa, deixa um elemento importante de fora: o fato das maiores surras que ele leva, ao longo das duas horas de projeção, virem dos mais ricos e das autoridades. Em Coringa, um trio de yuppies e uma dupla de detetives representam maior ameaça do que os capangas do tráfico e mafiosos que Batman costuma enfrentar. Também há todo o descaso e as humilhações vindas do estado e de parte da classe empresarial – e é aí, inclusive, que entra Thomas Wayne (Brett Cullen). Ele tem maior importância do que os trailers deixam mostrar, e representa muito bem homens poderosos que enriqueceram às custas da população e se apresentam como solução para problemas que eles mesmos causaram – como é verbalmente explicitado no filme.

Alguns diálogos e figuras representadas podem carecer de crueza, mas funcionam no que querem transmitir e não interferem na proposta. Apesar do realismo, Coringa não deixa de ser extremamente quadrinhesco e conter diversas alegorias. Poderia ser facilmente algo tirado das páginas de um Frank Miller ou Alan Moore, e essas influências estão muito bem manifestas no decorrer da trama, desde a premissa – que remete à sua origem em A Piada Mortal – até outros elementos que vão sendo introduzidos. Claro que suas diferenças para A Piada Mortal falam mais alto do que as semelhanças: para começar, não tem Batman, então só vemos um lado da moeda – o que não afeta em nada sua qualidade. E, ainda assim, consegue se integrar perfeitamente ao universo do Homem-Morcego, além de torná-lo presente na discussão através de decisões ousadas e extremamente interessantes, que evidenciam, mais uma vez, a dicotomia presente no embate entre os dois. Um não existe sem o outro, e são frutos das mesmas falhas do sistema.

Mais uma diferença importante para a obra de Moore – e essa, sim, inferior – é a demarcação do processo de deterioração mental do protagonista. Em A Piada Mortal, é perfeitamente enfatizado, inclusive pela arte de Brian Bolland, o ponto de não-retorno para o Coringa – o momento em que ele realmente se vê no fundo do poço e não há mais saída por vias racionais. Aqui, uma determinada atitude, que definitivamente representa essa mudança para Arthur, parece um pouco precipitada para o ritmo com o qual sua transformação estava se desenvolvendo.

Outra ideia que poderia ter sido melhor executada é uma ruptura em seu arco com a personagem de Zazie Beetz, que, apesar de justificável, impactante e importante para a plausibilidade da história, fica um pouco arbitrária e conveniente demais pela pressa com a qual se coloca. Talvez se tivesse sido trabalhada de outra maneira, com mais tempo de tela, teria se encaixado melhor. Inclusive, todos esses problemas do roteiro poderiam ter sido contornados com mais meia hora de duração – o que nem pesaria, porque o ritmo é ótimo, com uma edição atenta à proporção dramática de cada cena.

Outro ponto alto é a própria direção de Phillips, que confere o devido tom aos diferentes acontecimentos e sabe dar destaque para a iconografia da produção (mérito também do excelente design de produção e da elegante e eclética fotografia de Lawrence Sher). Ele consegue comunicar visualmente boa parte do que quer passar, e efetivamente gera tensão e descontração com seu notável controle sobre os recursos audiovisuais. O uso pontual da música (tanto a melancólica composição de Hildur Guðnadóttir quanto as canções populares selecionadas), por exemplo, ajuda em seu efeito impregnante, assim como o sempre preciso posicionamento da câmera.

Porém, o maior acerto do diretor pode ser o fato dele saber filmar o show à parte que é a interpretação de Joaquin Phoenix. Deve ser uma das melhores atuações de sua admirável carreira, e entende perfeitamente o personagem em sua fisicalidade. É um controle corporal impressionante, indo de um retraído Fleck ao livre e solto Coringa, surpreendentemente adotando até o caráter cartunesco que está tão presente nas animações.

Sua risada, que aqui ganha respaldo científico, simboliza muito mais do que mero artifício: é o único jeito que Fleck tem de expressar sentimentos mais fortes, surgindo compulsivamente (até engasgar) nos momentos mais variados – o que inicialmente causa constrangimento, mas vai sendo aceito e incorporado à medida que ele abraça sua nova personalidade. Também podemos notar que, diferentemente de outras versões live-action, ele passa maior parte do filme se cristalizando em seu comportamento, então, até o clímax, toda a apreensão e ressentimento de Fleck ainda estão presentes no olhar e na forma de falar do Coringa. É assustador porque é real, e Phoenix merece todo o reconhecimento por esse resultado.

Do resto do elenco, Robert De Niro se destaca com o pouco de tempo que possui, num papel que provavelmente faz referência à sua participação em O Rei da Comédia (1982) – um clássico que, junto com Taxi Driver (1976), parece ser a maior inspiração do filme. Tematicamente, também lembra muito Caminhos Perigosos (1973), mostrando a importância de Martin Scorsese para a produção (ainda que não tenha envolvimento direto com a mesma). Outros grandes nomes do elenco, como Brian Tyree Henry, Marc Maron, Frances Conroy e a própria Zazie Beetz, acabam sendo subaproveitados – porém, por ser um filme abertamente centrado no personagem principal, é compreensível.

Assim como Taxi Driver e Um Dia de Fúria (1993), e inspirado em obras do Expressionismo Alemão em sua graficidade, Coringa demonstra, cinematograficamente, os devastadores efeitos da modernidade na mente do indivíduo, até o ponto do mesmo recorrer à violência para se libertar das diferentes estruturas que o aprisionam. Nisso, entra uma fidedigna amostra de como figuras como o protagonista seriam (e constantemente são) cultuadas por uma população abandonada pelo poder público e explorada por instituições privadas. Todo o marketing já entregava que o longa flertaria com essas questões, só que é surpreendente pela objetividade com a qual o faz – não deixando de reconhecer e referenciar a mitologia do personagem em sua retratação.

É por essas e por outras que Coringa pode ser considerado um dos lançamentos mais revigorantes do subgênero de super-herói: não por recusá-lo (até porque não o faz) ou trazer algo fundamentalmente novo, mas pela forma direta com a qual se propõe a discutir seus temas – algo que provavelmente seria inevitável num filme do Coringa. A DC definitivamente fez uma decisão sábia ao deixar o universo compartilhado de lado para se dedicar a histórias isoladas mais livres em suas escolhas. Quem sabe o que mais virá daí?

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