Em 1995, Sean Penn emocionou o mundo com o seu papel de um condenado à morte em Os Últimos Passos de um Homem, conseguindo, inclusive, uma indicação ao Oscar. No mesmo ano, Mel Gibson cativou o público com o vencedor de melhor filme Coração Valente, onde interpreta o revolucionário escocês William Wallace. Agora, mais de 20 anos depois, os dois atores assumem papéis que remetem aos seus icônicos personagens: Penn interpreta um sensível prisioneiro, enquanto Gibson faz uma espécie de revolucionário (ainda que no meio acadêmico) escocês. Ambos têm a mesma missão: construir um amplo e completo dicionário da língua inglesa. Para muitos (principalmente os fãs dos atores e… da língua inglesa) tal projeto não poderia dar errado, mas, infelizmente, algo se perde no caminho de O Gênio e o Louco. O que poderia ter sido um sólido drama histórico acaba se tornando uma inchada e imprecisa tentativa de comover o público.

O longa começa com uma intensa sequência de perseguição, que já atesta o exagero que irá permear as próximas duas horas. As reações dos personagens – e a própria condução da cena – possui uma energia que não condiz com um drama baseado em fatos: está mais para uma aventura de época genérica, só que sem o necessário grau de excelência técnica para empolgar. Temos duas perspectivas se intercalando numa edição rápida, que são concluídas de forma artificialmente trágica a fim de puxar um melodrama. O resultado acaba parecendo uma paródia do subgênero, com direito a um clássico grito desesperado ecoando pelos ares. Nenhuma outra cena do filme chega a ser tão espalhafatosa quanto, mas a tentativa de comover o espectador com momentos dramáticos não propriamente construídos é frequente. Não há um desenvolvimento que torne as cenas merecedoras de nossa comoção, além das performances e os diálogos estarem mal-calibrados.

Se a proposta estética do filme se pautasse na paródia – ou até mesmo replicação – de convenções do cinema hollywoodiano (ou seja, se tudo fosse intencionalmente parte do texto passado) poderia ser uma viagem interessante. Mas, ao invés de irreverenciar os chamados Oscar baits (filmes que buscam desesperadamente replicar uma fórmula de forma que garanta vitórias em premiações), parece que o diretor Farhad Safinia fez a mãe de todos os Oscar baits – só que de forma extremamente incautelosa. Na tentativa de fazer um drama de época com toques de romance e ação, ele acaba nos trazendo nada, pois nenhuma dessas vertentes possui uma introdução orgânica – tudo soa muito forçado.

Aliás, tudo que diz respeito aos próprios protagonistas e a confecção do dicionário também acaba ficando prejudicado pelos devaneios em outros campos. O ato de coletar as palavras pode não ser particularmente engajante, mas sendo um filme sobre tal feito, poderiam investir um pouco mais de tempo nisso. O elemento humano acaba se sobrepondo à trama central, o que não deveria ser ruim, mas pelos problemas já citados e por serem colocados de forma desconexa, acaba sendo. Se fosse só um filme sobre pessoas montando um dicionário, seria melhor (o que pode soar um tanto absurdo para quem não assistiu).

A própria amizade entre os dois protagonistas, que supostamente é a alma da história, além de demorar para engatar, quando começa, é muito de repente. Após uma simples e breve conversação, eles já se consideram irmãos – o que não fica tão evidente assim para o espectador. O roteiro (que conta com diversos autores) não possui a sutileza de clássicos como Tempo de Despertar (1990), Um Sonho de Liberdade (1994) ou até mesmo do recente Intocáveis (2011) para nos convencer de que aqueles dois homens se adoram. Tudo bem que a produção não possui o mesmo tempo de tela que os citados para desenvolver a relação, mas o fato é que simplesmente dizer que duas pessoas são irmãs não as tornam íntimas automaticamente: é necessário mostrar isso para o público. Como consequência, acaba que toda tentativa de nos emocionar com o vínculo entre eles não funciona. O filme também tenta gerar alguma reação com frases de efeito, discursos motivacionais, demonstrações de coragem vazias e uma imageria consideravelmente violenta, mas nada disso parece mais do que pura apelação.

O que sobra de positivo dessa experiência, além de (talvez) conhecer uma história pouco divulgada, é a entrega de Mel Gibson. Sua atuação é tão convincente que, às vezes, parece que ele está em outro filme. Dizem que durante anos esse foi um projeto pessoal do ator, e isso é perceptível. As emoções que ele passa talvez sejam os elementos mais verdadeiros de todo o longa – e olha que a reconstituição de época é bastante crível. O valor de produção é evidentemente alto, pena que não foi otimizado.

Quanto ao resto do elenco, Natalie Dormer, Steve Coogan, Eddie Marsan e Jennifer Ehle fazem o que podem com o material que lhes foi entregue, conseguindo evidenciar seus talentos em condições adversas. O mesmo não pode ser dito de Sean Penn, que é um excelente ator, mas, infelizmente, acaba caindo no campo do overacting e ficando caricato. O mesmo pode ser dito de outros, mas eles não possuem uma presença frequente para causar tanta impressão. Com uma direção de atores mais acertada, talvez isso poderia ter sido evitado (apesar dos clichês do roteiro não ajudarem).

Equacionando todos os fatores, a conta de O Gênio e o Louco não fecha, tendo atirado para todos os lados sem acertar lugar nenhum. Temos uma bela atuação de Mel Gibson e uma ambientação minimamente palpável, mas os outros aspectos realmente não ajudam muito. Talvez se tivesse uma proposta artística mais específica, uma razão de ser mais aparente, seria uma experiência memorável, fazendo jus à história que busca contar.

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