Cansado de uma vida de matanças, um assassino profissional de meia-idade resolve se aposentar, mas não consegue porque, agora, é perseguido pela instituição à qual serviu. Poderia estar falando do terceiro John Wick, ou provavelmente de outros filmes de ação que não vêm à memória no momento, só que trata-se de Projeto Gemini, dirigido pelo visionário Ang Lee e estrelado por Will Smith.

Apesar da premissa parecer batida, há um importante diferencial: um dos assassinos que vão atrás de Henry (nome do personagem principal) é uma versão mais jovem do próprio. Isso não só permite que a produção ostente um excelente CGI de rejuvenescimento do astro, como também explore temas muito caros à natureza humana, como redenção. Por trás da pancadaria entre clones, há todo um drama sobre a culpa que o protagonista carrega por ter feito o que fez ao longo dos anos, a ponto de não conseguir se olhar no espelho (como ele mesmo diz num momento). Agora, sem a opção de evitar o próprio reflexo, vê em sua cópia a possibilidade de se salvar – só que, para isso acontecer, deve quebrar todo um sistema que se sustenta em mortes (encabeçado por Clay, que é interpretado por Clive Owen).

Essa premissa tem muito a ver com a proposta estética da obra, que, assim como o último filme do diretor (A Longa Caminhada de Billy Lynn, de 2016), se baseia no fato de ter sido rodada em 120 frames por segundo, ao invés do padrão 24. Infelizmente, não é o que maior parte do público deve testemunhar, uma vez que é preciso ter projetores com capacidade de reprodução nesse nível. No Brasil, por exemplo, o máximo que temos são as salas 3D+, que rodam a 60 fps. O resultado não é tão impressionante quanto era de se esperar, além de não servir de muito para boa parte das cenas, já que centram em diálogos meramente protocolares e parados. A ação, porém, é bastante frenética, imersiva e evidencia a alta resolução dos detalhes em quadro, o que é posto em bom uso, por exemplo, no primeiro embate entre os dois Will Smiths.

Na sequência em questão, há uma alternância muito ágil de enquadramentos, que vai da câmera subjetiva ao plano detalhe num espelho que revela a presença do inimigo. Isso sem falar do uso da profundidade de campo para enfatizar elementos de cena e algumas ideias megalomaníacas dignas de um bom blockbuster (como a granada sendo rebatida por um tiro ou o uso de uma moto como arma). Além do competente trabalho de edição de Tim Squyres (colaborador de longa data de Lee), o próprio diretor impressiona com a opção por planos-sequência em ocasiões inusitadas, fazendo uma boa economia de cortes e realçando ainda mais a desafiadora coreografia.

O ritmo fluido se estende aos momentos entre a ação, mas, infelizmente, como foi colocado anteriormente, esses são muitos e possuem poucas particularidades para aproveitar a tecnologia e a sempre interessante fotografia de Dion Beebe. Aliás, vale destacar o fato de haver uma boa quantidade de lutas no escuro perfeitamente visíveis e contempláveis (principalmente no primeiro ato, com aquela paleta de cores azulada).

Apesar dos diálogos genéricos e excessivamente expositivos, e das figuras coadjuvantes unidimensionais (até quando não tentam ser, como no caso do vilão), o longa parece se assumir em suas limitações. Tirando o subtexto anti-sistêmico e os arcos dos personagens de Will Smith, não tem pretensão de ser muito mais do que um espetáculo visual. O problema é que, diferentemente das franquias Missão: Impossível e John Wick, a ação não se faz tão frequente, e, quando surge, não consegue impressionar como a primeira grande sequência, criando um clima de estagnação que dificilmente é proposital.

Ainda assim, há de se admirar a decupagem constantemente funcional, articulada e, por vezes, altamente expressiva, que eleva bastante o material (com exceção de uma escolha específica no terceiro ato que, particularmente, reduz bastante a força de um confronto central). Algumas concepções visuais, expressas principalmente pelo design das armas e dos figurinos, aproximam a produção de um videogame (o que tematicamente faz sentido), com a presença de inimigos que vão ficando mais fortes e resistentes. As locações, por outro lado, sempre nos situam no mundo real, acontecendo tanto em lugares mais fechados quanto em vias públicas.

Quanto ao elenco, Will Smith entrega duas boas performances, mas realmente se destaca em sua versão mais jovem, já que lida com um conflito interno muito mais intenso. Ele começa monossilábico e apático, mas, aos poucos, vai mostrando o seu lado mais frágil. A relação visceral entre os dois clones também garante interações bem mais envolventes do que as outras. Clive Owen desempenha habilidosamente o seu papel inevitavelmente caricato, enquanto Mary Elizabeth Winstead e Benedict Wong também convencem como personagens menos substanciais (apesar de Winstead participar de boas cenas de ação). A qualidade da sonoplastia também deve ser notada, com edição e mixagem de som bastante apuradas e uma trilha sonora pouco marcante, só que eficiente.

Projeto Gemini pode até não ser tão criativo, divertido ou memorável quanto outros lançamentos recentes do gênero, mas não deve ser desconsiderado, até porque parece buscar algo diferente: um entretenimento mais encorpado e interessado na experimentação visual. Ainda que, na prática, dificilmente se faça evidente (até pela especificidade de seus requerimentos na projeção), tem todo um conceito muito sólido, criando um paralelo entre a produção e a própria trama. Uma tentativa de quebra de paradigmas que fica mais na promessa, mas vale reconhecimento por entender o cinema também como fim, e não só um meio.

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